Alma Amaldiçoada

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                    Um homem jovem alto, uma face vivida, dentro de um terno preto de grife, inapropriado para o local tão humilde onde estava. Encostado numa janela, impedindo que qualquer luminosidade entrasse naquele minúsculo cômodo. Uma espécie de quarto; a umidade nas paredes fizera o seu reboco cair a um bom tempo, o teto esburacado parecia que poderia desmoronar a qualquer momento, havia também um alçapão no chão, que era única certeza que havia uma saída daquele lugar imundo e horrendo. Já seria desconfortável aquele rapaz sozinho ali, mas havia mais alguém com ele, uma menina, aparentemente como todas as outras, mas através de algo não atento se podia presenciar o incomum. Ela era de uma cor pálida, como se nunca houvesse saído à luz sol, seus cabelos longos e pretos com pequenos cachos nas pontas e um vestidinho branco lhe davam uma aparência mais infantil, seis talvez sete anos. Porém seu olhar lhe dava mais, nada inocente residia naquele corpo.
          Ela estava sentada numa velha cadeira de madeira, que rugia a cada movimento que ela fazia, ela estava insegura era certo isso, seu olhar mudava a todo o momento, como se houvesse uma guerra silenciosa dentro de si, uma hora bom outro ruim, como um corpo de dois donos.
            Passaram-se horas e o jovem encostado na janela sem se movimentar, assim chegou à noite e o olhar gélido na criança permaneceu, até se cansar e cair e um sono profundo. Acordando horas mais tarde. Estava marrada naquela mesma cadeira, dominou-se pelo desespero ao perceber que estava sozinha e presa naquele lugar medíocre, tentando se libertar caiu junto à cadeira. Passaram-se horas e ela estava lá caída e chorando, esperando até aquele rapaz voltar, afinal ela sabia que gritar não iria adiantar.
          Um dia, dois dias, dois dias e meio a menina estava desnutrida, perto da morte, até aquilo que jazia dentro de si travando guerras, havia a deixado. A menina totalmente indiferente, pronta para morrer assim como merecia. Ela teve um pouco de fé quando o alçapão do chão se abriu, mas as lagrimas voltaram ao rever aquele jovem que tinha a deixado para morrer. Ele estava com uma mochila, que não combinava com aquele mesmo terno que ainda vestia. Foi até a menina afrouxou um pouco as cordas, de uma maneira que ela não podia se libertar a levantou e a abraçou tirou da mochila comida e a alimentou. E o fez de novo encostou-se à janela e lá ficou, mas dessa vez ele a observava.
          A noite chegou novamente, o jovem rapaz então se movimentou, pegou duas garrafas de sua mochila e começou a jogar o liquido que nelas haviam por todo aquele cômodo, quando chegou à menina jogou aquele liquido nela sem hesitar. Depois de dias de convívio, ele lhe dirigiu a palavra pela primeira vez.
- Eu sei que não é bom o que farei, mas algumas coisas precisam descansar, e o que quase morreu dentro de você e que permanece ai precisa muito disso. Se você morrer, o demônio morre junto contigo e o mal aqui presente se vai. – jogou um tanto de sal nela. Abriu o galpão e pouco antes de descer por ele jogou um isqueiro aceso, o liquido que mais parecia água, virou chamas rapidamente, até chegar à criança, sua pele branca e macia, foi se transformando numa pele vermelha e cheia de bolhas. Sua única imagem foi da fumaça negra entrando em seu peito e sufocando seus pulmões. Ela não gritou, não hesitou por um momento se quer, apenas aceitou a morte como lhe fora dada. Seu corpo virou cinzas e sua alma amedrontadora se aprisionou ali onde fora sua ultima estádia.
          Lamentável como foi mais um pecado, nenhum demônio morreu, só se foi um corpo, inabitável. Ninguém nunca a salvou, agradeceram pela alma amaldiçoada que se foi, mal sabiam que aquilo seria uma salvação ao que fora perdido.


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