Eu nunca havia chorado frente a um homem, a insensibilidade masculina sempre alertara meu excesso de orgulho.

Então eu te conheci e eu chorei, inundei o país inteiro, chorei em cada canto da casa, e em todas as estações da linha 2 do metro, chorei cada lágrima que um dia segurei.

Chorei por um verão inteiro...
Esvaziei, sequei, desidratei e morri

Eu morri de dor e de alívio, por finalmente te desconhecer....
É assim que os loucos morrem, sentados no chão frio do banheiro de sua casa vazia, em uma periferia QUALQUER, sozinho, sendo ninguém, assim como veio, se esvai como nada.
Acho que a vida é feita de frustrações.
Olho para o meu violão no canto do quarto e me iludo
são quinze anos sem saber toca-lo.
Sabe, nem todo mundo nasce com o dom de ter tempo.

Vocês fazem mó auê por causa da carne, ou de quão grande é casa daquela mulher famosa.
Qual foi mesmo o assunto da semana? Aaah é.... aquele filme de super-herói e o super-herói que matou o seu colega de quarto, diz ele que por autodefesa, e quem sou eu para julgar? Perdi a conta de quantas vezes me vi sem família só para o peso nas costas acabar.

Meu auê se chama dor de cabeça, após trabalhar janeiro inteiro em baixo de 30 graus de sol, só me alivio no inverno, que congelo aos 15 graus medianos de São Paulo.

Não venha tentar me educar e dizer que meu problema é só falta de informação. Meu caro...  Meu problema é falta de dinheiro e de tempo para fazer mais dinheiro.

Você sabe o que é ter que sustentar uma família que nem ao menos foi você que fez? Pois é, são três irmãos pequenos e eu mal tenho 20 invernos e sou incapaz de deixá-los morrer de fome.

Então para com esse seu conto de fadas que me fere, que influi que eu sou burro. Eu sou é bem inteligente, pena que o sistema não engloba o menino que empina pipa as férias inteiras na periferia.

Muito menos uma mãe que não entendia o que era contraceptivo e que homens muitas vezes não são bons. Desculpa aí se o seus pais são cuidadosos e você tem seu aconchego de ser filho único, e tu ainda vem apontar o dedo na minha cara dizendo que tenho tudo.

Tudo o que? Eu tenho fome de mil sonhos impossíveis, tenho uma irmã que se arrasta em bailes por drogas e uma mãe ajoelhada em lágrimas na igreja da esquina 3x por semana. Tenho carência de um pai que não sei o nome e a escola que nunca soube quem eu sou.

É 2017 e o máximo que alcancei é ser servente de pedreiro, eu me mato o dia inteiro arrumando o seu banheiro, onde você faz as suas merdas enquanto eu procuro o melhor abrigo para os meus irmãos, com medo das tendências suicidas da matriarca.


Sabe tudo que eu tenho é inveja da sua vida dura de acordar 7:30 para assistir uma aula de ciências humanas, invejo seus assuntos no bar “você acha mesmo que a república de Platão alcançaria uma sociedade perfeita? ”, eu não sei quem foi Platão, mas sei muito bem que a sociedade está muito longe da perfeição. 
Você faz falta
com quantas faltas você reprova no meu coração e torna-se apenas um borrão esquecido do meu passado?

Sabe, na vida passamos por muitos amores, eu quem o diga, ne? Antes de você eu me apaixonava toda semana, fazem 427 dias que não amo ninguém.

As pessoas tornaram-se cinzas, antes eram como fogueiras, ter pessoas ao meu redor me aquecida do frio constante dos dias, acreditava que qualquer um podia me guiar pela escuridão, agora, notei que são cinzas e quando elas me tocam, elas me sujam. Você me aqueceu por muito tempo e suas cinzas me poluíram.

Eu apodreci, virei tabu, quando me jogo nas ruas as cinzas atravessam as calçadas, não há cura para minha carne pútrida e eu não sou biodegradável.


Você me fez item industrial, sou produto e capital.
Você foi um apanhador de sonhos, eu te trouxe para casa sem saber que era prejudicial. 
Hoje é dia nove de janeiro e faz mais de um ano que eu venho pensando no que significa desconhecer alguém, eu não sei qual o seu sabor de sorvete favorito, se prefere os dias de sol ou de chuva, mas sei que sua cor favorita é verde, mas todo mundo acha que é marrom, sei que tem uma pintinha ao lado dos seus lábios, que só aparece quando você faz a barba (lembra quando você fez a barba para ver como ficava sem? Você ficou choramingando até ela voltar ao normal, você se achou feio e eu só conseguia me perguntar como alguém pode ser incrivelmente lindo de qualquer forma, e como algumas formas são perfeitas, perfeita como a manchinha perto dos seus lábios).

Quando nos conhecemos te impressionei com como tudo era tão errado na minha vida e você tentou consertar cada erro, mas não conseguiu. Moramos em casas sem estruturas e por um tempo você estruturou a minha.

Eu ainda não superei as suas músicas favoritas, meus gostos musicais eram semelhantes aos seus e cada música do Los Hermanos ainda tem um pedaço de você. Tenho em mim um universo com o seu nome com data de validade, eu não sei mais que horas você acorda ou com quem tem saído, rasguei seu endereço e tirei de vista todos os presentes que você me deu (ainda não consegui joga-los fora como sempre digo que fiz).

O tempo passou, mas eu ainda espero que você apareça encharcado em meu portão (nunca existiu obstáculos para você aparecer aqui, você mesmo dizia que uma chuva não era nada), ainda acho que a qualquer hora você irá me chamar mostrando a música nova que você compôs ou me mandando fotos de como tá o role. Infelizmente eu costumo esperar muita coisa, inclusive ter o poder de te desconhecer um dia, de esquecer de como era ouvir sua voz rouca me perguntando “o que você fez comigo para eu te amar tanto? ”.


Engraçado que não sabia como um dia essa pergunta seria eu quem faria.
Me disseram que o amor não matava, então me explica essa marcha fúnebre que minha vida tem seguido após o seu mandato.